segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

A Voz da Terra

Retirado da revista Terapia Ilustrada, de 1954, esse texto é uma boa reflexão para os dias de hoje:


A Voz da Terra - por Aristides Ávila


Ora, saibam quantos esta crônica lerem ou dela tiverem conhecimento que, certa ocasião, num recanto de quintal, brigaram a Pimenta e a Flor de Laranjeira.

Dir-se-ia que a flora circunvizinha e também a fauna de arribação abrissem um parêntese na própria rotina para dar ouvidos ao caso, pois não deixa de ser divertido assistir de palanque a um torneio de desaforos.

Houve réplica e tréplica do estilo, com imputações incontestáveis e contestações irrespondíveis. Equilibravam-se os debates. Aliás, nunca se viu demanda em que um querelante não se julgasse com direito igual, senão melhor que o do antagonista. Móvel da rixa? Possivelmente, ciúmes, ódios e vaidades, que isso de cultivar defeitos como se fossem virtudes nem sempre é alto privilégio humano - produto de enxerto da razão no instinto. Os seres inferiores agem, às vezes, pior que os homens.

Mas a circunstância é que a Flor de Laranjeira, estando com a palavra, prosseguia nos artigos contra a Pimenta:

- Francamente, custa-me acreditar que você exista!

- Por que? Acaso não sou bastante visível?

- Demais! Com essa cor de labareda...

- E essa! Cada qual se veste da cor que mais lhe agrada... Então? Por que acha difícil acreditar na minha existência?

- Por causa da sua inutilidade.

- Inútil, eu?!

- Naturalmente! Sua presença magoa, sua ausência é um alívio.

- Mas é minha função. Todos me querem assim. E você, para que serve?... insípida, branca e fria, desse jeito?...

- Que pergunta! Vá indagar das noivas para que presto eu. Porventura, as donzelas enfeitam grinaldas com pimentas?

- Claro que não. Como também é exato que ninguém tempera guisados com flores de laranjeira...

- E é só para tempero que você presta?

- Já é algum merecimento. O que não me contentaria é ser apenas decorativa, como você... e, para maior dos pecados, uma presunção de inocência.

- Isso diz você, Pimenta, porque não passa de um símbolo de malícia.

- Como quer que seja, não costumo iludir a gente de boa fé. Sou ardentemente sincera: picante, em público e raso. E voce? Desfolha, morre... e, no seu lugar, brota uma laranja, muitas vezes, tão azeda que ninguém a tolera... nem com açúcar!

- Pouco importa! Essa indignidade é com a laranja, que é fruto, como você, e não flor, como eu. O que não padece dúvida é que tenho o coração cheio de mel. Não faltam abelhas para me beijarem...

- Pois eu prefiro que me mordam. E correspondo na mesma hora...

- À vontade... Quanto a mim, fico à espera das abelhas.

- E eu, à espera de alguém que me colha, para estimular o apetite das pessoas de bom tom.

- Sim, com esse gosto de fogo, que lembra o fundo do inferno...

- Pretenderá você insinuar, Flor de Laranjeira, que é um pedaco do céu, com esse triste cheiro de ingenuidade?

- Bem achado! Como não? Somos muito diferentes. Ponha-se no seu lugar!

- Pretensiosa! Você está enganada! Nós não temos nada que ver com o inferno nem com o céu. O que nós somos é produto da Terra, está ouvindo?

- E que estranha química faz a sua raíz, para tirar da Terra uma seiva tão brava?... da mesma Terra, de onde me vêm a graça e o perfume?

A Pimenta não entrou em explicações; saiu-se com esta:

- Ariel de fancaria!

Ao que revidou a Flor de Laranjeira:

- Calibã desmarcarado!

Assim continuaria a polêmica, sem resultado prático nem ponto final, se não acontecesse um imprevisto:

A Terra, tendo ouvido pronunciar seu nome, resolveu intervir na empatada pendência e apostrofou:

- Calem-se! Vocês não sabem o que dizem! Limite-se cada qual a ser o que é, e como é! Respeite os outros e reconheça, afinal, que as coisas não podem ser iguais. Cada uma em sua condição; um destino para cada uma. A igualdade absoulta abortaria em tédio, e o tédio é caminho do aniquilamento. Eis porque a Natureza criou a desigualdade. Porém a diversidade não é motivo para discussões. Eu sou mãe, e tenho autoridade para falar, porque sou eu quem dá a vida a vocês todos. Dou a vida e fico à espera da sua volta, pois, mais cedo ou mais tarde, todos hão de retornar ao meu seio: desde a árvore, que fornece a sombra confortadora, o fruto que alimenta e a tábua para o esquife, até o Homem, que vive às custas de vocês, como vocês vivem à minha custa! Repito: vocês acabarão voltando para mim, fundidos na unidade da matéria prima. E terão de nascer e renascer, até compreenderem esta verdade. Sirva isto de lição! E, por agora, basta! Vai anoitecer. Precisamos dormir. Não admito barulho nas minhas costas!

A advertência fez o ambiente silenciar, de fato.

E, como sucessivas cortinas que se fechassem, foram-se acumulando as trevas do crepúsculo. Tudo adormeceu ou, pelo menos, fingiu adormecer.

Em todo caso, o Grilo, como bom guarda-noturno, passou a noite inteira, de apito na boca, policiando a gleba.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Renovação de Vida

Por Tarcízio P. D. Scalabrin 

Pássaros, animais silvestres, árvores e frutas são seguidamente relacionados como “em extinção”, mesmo que se conheça e veja a todo o momento em nosso ambiente natural.

Existem até ONGs que fazem um belo trabalho de procurar, capturar e controlar certos animais e aves, para acompanhar seu desenvolvimento e procriação. A Fundação Projeto TAMAR atua no litoral brasileiro há mais de 40 anos com a missão de promover a recuperação da tartaruga marinha, através de ações de pesquisa, conservação e inclusão social. Uma iniciativa louvável e que juntou trabalho com turismo, abrindo suas portas para visitação em vários pontos do litoral.

Nosso pinheiro, “Pinheiro Brasileiro” cujo nome científico é “araucária angustifólia”, além de ser uma árvore frondosa, alta, bonita, foi muito utilizado até pouco tempo na construção de moradias e galpões de diversos usos. Prédios de diversos tamanhos e alturas eram frequentes para movimentarem moinhos, silos e outras atividades por todo o Sul do país, quando a alvenaria não era ainda industrializada.

Ela também produz uma semente chamada pinhão, que não é uma fruta, já que a araucária é uma árvore que não tem fruta, faz parte do grupo da gimnosperma. O pinhão, entretanto, é muito apreciado e consumido de várias formas na culinária e em natura cozida ou sapecada.

Entretanto, a araucária consta na legislação atual (DEC.42099 lei nº20223/2020) como em extinção. Não pode ser derrubada em hipótese alguma.

No último inverno, como em outros anos, vimos toneladas de pinhões serem comercializadas em mercados, fruteiras e tendas inclusive à beira das estradas por todo o sul do país. Toneladas não é exagero, é real. Vimos, freqüentemente, caminhões transportando cargas completas de 8 a 12 toneladas. Os mercados eram abastecidos abundantemente.  O consumo familiar muito apreciado. Ninguém está preocupado com a tal lei que proíbe o corte do pinheiro e que chegará um dia que vai acabar o pinhão.

Seria talvez a hora de se promover ou estabelecer um trabalho mais específico do cultivo, plantio e manutenção do nosso pinheiro. Não basta proibir o corte da planta, ela por si tem vida longa, mas não é perene.  Para aumentar a flora do pinheiro justifica um estímulo, como uma taxa de plantio a cada quantidade comercializada. Determinar áreas especificas para plantio, como já se faz em muitos municípios para substituir outras árvores. 

Somos peritos e exagerados em criar leis, leis sobre leis, leis inócuas, leis inúteis, leis impraticáveis, leis que poderiam ser apenas substituídas por educação infantil. Não tornemos agora uma lei prejudicial, isto é, que acabem os pinheiros e os pinhões por falta de um reflorestamento adequado.


domingo, 18 de dezembro de 2022

Final de Ano 2022

Chegamos a mais um final de ano, com muitas polêmicas, mas sempre com a nossa pontinha de esperança que nunca nos abandona, afinal, se não acreditássemos na verdade e na justiça, nada nos valeria a pena.

Não somente no Brasil, mas também no mundo, houve catástrofes causadas pela natureza (é a natureza refletindo as ações do próprio homem).

Particularmente, passei por um problema de saúde, e ficando assim por dois meses com a loja fechada, mas graças a Deus estou bem e com a loja aberta.

Quero agradecer a todos clientes e amigos e desejar um Feliz Natal e um ano novo com saúde e paz.

Guido

TAMIG Papelaria e Livraria

domingo, 19 de dezembro de 2021

Final de Ano

Depois de dois anos de muitos desafios, neste final de ano já podemos sentir um pouco da “normalidade” voltando. Podemos acreditar que o pior já passou e há luz no fim do túnel. 

Então aproveite para ficar perto de quem ama, para abraçar a família, reunir-se novamente em volta da ceia de Natal e tirar selfie com o amigo secreto. E para quem está longe, deixe um pensamento de alegria e os votos de um belíssimo 2022.

Aos nossos amigos e clientes, agradecemos por mais um ano de parceria. Desejamos boas festas e um novo ano de muitas alegrias! São os votos da família Tamig.


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Renovacão de vida (2)

 Por Tarcízio Scalabrin

¨Dom Pedro II criou, em 1861, a Floresta da Tijuca, iniciando um ambicioso programa de recuperação da vegetação. Sob o comando do Major Archer e ajuda de cinco escravos, mais de 100.000 árvores nativas foram plantadas em 13 anos. É essa floresta, regenerada pela ação do homem e da natureza, que compõe o Parque Nacional da Tijuca, a maior e mais bela floresta urbana do mundo. Criado em 1961, o Parque tem cerca de 4000 hectares. Possui 1550 espécies vegetais, rica fauna, 120 sítios arqueológicos, históricos e arquitetônicos, grutas, cachoeiras, vales e montanhas. Com centro de visitantes, casa de pesquisadores, trilhas sinalizadas, mirantes e ampla programação cultural, o Parque transformou-se em um centro de esporte e lazer: escaladas, ginástica e voo livre convivem com práticas religiosas e passeios.¨ (Diário de Dom Pedro II e Acervo Museu Imperial de Petrópolis RJ)

Este foi um dos legados deixados por Dom Pedro II ao povo carioca e brasileiro. Deixou também uma economia com crescimento anual de 8,81%, o Brasil como 4ª economia do mundo, a segunda maior marinha do mundo, 26 mil km de ferrovias e outros legados de muita importância.

Hoje temos condições técnicas, econômicas e humanas para reflorestar milhares de hectares a mais, assim como se faz com o eucalipto, a acácia e no Centro Oeste com o mogno (viveiroambiental.com.br). Para tanto, basta criar mecanismos culturais que incentivem a prática do plantio sistemático.

As técnicas utilizadas hoje para plantio são diversas. Plantio direto de sementes com acompanhamento da germinação, controle de água e de insetos, principalmente das formigas. Viveiros especiais com cobertura integral, inclusive lateral. Controle de temperatura e irrigação permanente. Facilidade de substituição de sementeiras e mudas até a fase de transplante definitivo. Quantidade de sementes inquestionável.

É economicamente viável tanto pela iniciativa privada (já existem muitas), como pública (que também já existem em alguns municípios). As prefeituras que agem mais diretamente com a população seriam as mais indicadas para manter viveiros e mudas em quantidade para suprir suas próprias necessidades e substituir preventivamente a demanda da população. Além disso, a mão de obra é abundante em todos os municípios que conhecemos.

Temos todas as condições necessárias para manter uma boa fauna. Podemos criar condições suficientes para substituir árvores em qualquer lugar ou danificadas pelo tempo ou acidentes.

Obrigado